domingo, 4 de dezembro de 2011

[conto] A Assombração da Terra Plana

, era o título que Sebastião custara a parir e que agora encimava a página branca virtual na tela de seu computador. Longo, doloroso processo de gestação para o artigo que nascia agora e que o ufólogo(bem, ufólogo de meio-expediente, ao menos) ,assim o esperava, faria seu nome no ramo, para além dos estreitos círculos brasileiros de caçadores de "discos voadores" .

;título esse que era um tanto pomposo e esotérico, mas Sebastião aspirava à originalidade, acreditava que sua cria era única. Sim, havia algo de Vallee e de Keel ali,mas a idéia central, ele não se lembrava de tê-la visto antes em qualquer outro lugar.

Se bem que, pensando melhor, sequer se lembrava de onde viera a tal idéia...

"Paiê, eu fiz bolo de fubá pra Penny, pra Maggie e pra mim - o senhor quer um pedaço?"

Sebastião engoliu um resmungo, virou-se de sua obra-prima em construção para a filha de cinco anos, Rita, que brincava em seu escritório enquanto a mãe estivesse fora, nas compras ("e cadê a Marina que não voltava",resmungava mentalmente o Bastião, um cado mais). A menina se entretia - quietinha, até então - com as duas bonecas e a casa de brinquedo nova, aberta como um livro: oferecia ao pai, espectante, uma minúscula forma de bolo, recém-tirada de um forno quase tão minúsculo quanto, incrustado na cozinha de mentira.

"Meu bem... O papai está de dieta."

"Ah. O senhor está trabalhando, né. Tá bom."

"Ritinha...", mas a menina já voltava, anuada, para suas amigas liliputeanas. Sebastião suspirou fundo, deu de ombros, deu meia-volta com sua cadeira girante. Onde estava mesmo?

Ah sim. O mistério, o maior mistério da ufologia. Ah.

Cofiou o bigode, estalou os dedos, bateu alguns parágrafos introdutórios, apressados: Hipótese Extraterretre, blá blá blá, Hipótese Psico-Social, blá blá blá, Jacques Vallee blá blá blá - hmmm, melhor deixar Keel de lado ; talvez, quando finalmente explicasse a referência à Terra Plana de Edwin Abbot...

(música de fundo a que sua labuta mental já se conformava: a filha cochichando com "Penny" e "Maggie" ...soava exatamente como a esposa fofocando com as amigas na cozinha, numa tarde qualquer, rá, balançava a cabeça, o Sebastião, meio-sorriso , meio- tenso do labor da redação)

... mas, antes, o ponto chave:

"O maior mistério da ufologia é a inconstância do próprio fenômeno ufológico.

"Ao contrário do que afirmam os céticos, não há falta de evidências que corroborem a realidade física do fenômeno . Há , isso sim, um excesso de evidências físicas, além, é claro , da vasta literatura de avistamentos e contatos. Mas, ao contrário do que afirmam muitos ufologistas, por sua vez, não há padrões claros nesse acervo de décadas de casos catalogados.

"As evidências são em grande parte contraditórias umas em relação às outras. O plano geral do fenômeno ufológico sempre nos elude porque o próprio fenômeno parece estar em mutação constante."

(...pequena variação no musak da realidade doméstica: Sebastião registra sem atentar os risos abafados de Ritinha, e um "ssss!" reprovador cobrando silêncio das comadres de plástico)

...a má fama da ufologia, sua falta de crédito científico. O próprio Sebastião jamais vira um ovni, mas também nunca vira um vírus e jamais descrera da medicina moderna. Não é preciso ver para crer , nem é preciso mostrar para provar.

Mas, “cientificamente” falando : a hipótese extraterrestre não era testável, a teoria não dava conta dos fatos. A posição de Bastião no debate ufológica era firme:

“A exuberância do fenômeno ufológico é indício claro de uma inteligência em ação. A verdadeira questão é: qual é a natureza desta forma de inteligência?”

O pingue-pongue  de tentar imaginar as intenções dos visitantes alienígenas ameaçava não ter fim. Eles nunca respeitavam nossas espectativas, mudando as regras do jogo o tempo todo. Como que zombando da noção humana de racionalidade.

Suas manifestações iam de quase banais jogos de luzes às sinistras visitações de “homens de preto”, acendo para um sem fim teorias da conspiração

(risinhos no fundo de sua consciência, nas bordas de sua atenção)

, nenhuma que fizesse sentido. Por que o mistério todo... quando o fenômeno indicava uma capacidade clara de manipulação da realidade, como uma manifestação ex machina extra-dimensiona? Qual a qualidade da
inteligência de seres que podem tudo e que fazem tão pouco, que são tão mesquinhos em suas aparições?

“A resposta é clara, mas ignorada até agora, pois absurda; dribla nossas expectativas mais sagradas, em se tratando do contato com formas de inteligência mais avançadas que a nossa...”

(...
Falta algo aí.
...aquele silenciar súbito--)

"Rita? Ritinha, meu bem?"

Os brinquedos caídos no chão do escritório; a casa de bonecas vazia, sem Maggie, sem Penny. Sebastião sente aquele início de pavor que deixa o mundo inteiro irreal, levanta da cadeira de escritório, que fica girando sozinha, quando ele sai da sala em piloto automático.

"Rita, cadê você , minha filha?"

O breque e a inércia do processo de redação do artigo:as frases, os pedaços do texto em processo de formação, ricocheteando dentro da cabeça de Sebastião:

Veículos espaciais de desenho improvável e funcionamento impossível: como aeromodelos sacudidos de lá para cá por gigantes invisíveis, gigantes...

(As duas portas do apartamento, trancadas, com as trincas em seus lugares. as janelas com grades)

Discos voadores : tão tolos, tão funcionais quanto...  frisbees.

Aparecendo, sumindo, reaparecendo... Esquivos, provocadores. Vastos jogos de pique-e-pega. De esconde-esconde.

"Rita!"

Mutilações de gado. Abuso físico e mental de seres humanos, testemunhas, vítimas de abdução. Gente tratada como animal.

...gente tratada como pobres bichos de estimação, como brinquedos , nas mãos de...

"RITA!"

Brinquedos que se quebram fácil. brinquedos que a gente desmonta pra ver o que têm dentro.

Ao chegar a cozinha, já meio cego de desespero... a luz fria das janelas sumiu, o mundo empreteceu de vez, sumiu com a dor avassaladora no peito.

E então, a luz. A luz vinda de fora.

Sebastião viu o mundo... o universo inteiro... abrir-se, rasgado, escancarado, a sua frente. Tentou erguer as mãos para proteger os olhos daquela..imensidão mas seus braços e pernas estavam imobilizados, como que amarrados junto ao corpo

(...como que seguro firmemente nas mãos de um gigante invisível)

e Sebastião sentiu-se flutuar, mas não para cima: para fora.

"...um dos últimos 'avatares' do fenômeno ufológico, certamente, o mais popular, talvez o definitivo, é o do 'homenzinho cinzento':

"Baixa estatura, ausência de caracteres sexuais distintivos, e, acima de tudo, cabeça e olhos enormes, desproporcionais em relação ao corpo, em geral, mirrado.

"...como seres em processo de formação... os olhos negros insetóides sugerindo talvez larvas,pupas... Criaturas imaturas.

“Crianças.

"Como crianças curiosas e levadas , sem noção intrínseca de moralidade, sem conhecimento das consequências às vezes nefastas de suas ações.

"E todo o contínuo espaço-temporal é sua caixa de brinquedos. Ou sua..."

..."lá" fora,então:Sebastião tinha uma vista privilegiada do mundo - uma visão completa, o universo ali aberto de cima a baixo e virado ao avesso, no espaço e no tempo.

Buscou instintivamente seus entes mais queridos: viu Ritinha escondida dentro da máquina de lavar roupa, Maggie e Penny em cada mão,rindo-se com as bonecas da peça pregada no pai. Viu Marina voltando das compras, presa no tráfego pesado, ligando pra casa de seu celular -  viu, bizarramente, a si mesmo caído no chão da cozinha, insensível à campainha do telefone.

E viu esse cenário se desdobrando no tempo, espiralando-se apartir daquele instantâneo: contemplou a vida inteira de cada um daqueles três diminutos personagens, viu como chegaram até ali - viu como a vidinha insignificante de cada um iria terminar. Não quis ver mais, e então desviou o olhar - e então olhou para cima.

"Pai, fiz bolo de fubá para as crianças, aceita um pedacinho?"

Sebastião desperta de seu devaneio ensonado, a mente tão ou mais entorpecida que o velho corpo; pisca várias vezes, ainda confuso, para a filha Rita, de trinta e cinco anos, que se debruça sobre sua cadeira de balanço com uma forma fumegante nas mãos.

"Ah, minha filha, agradecido, mas a minha azia, você sabe..."

"Tudo bem pai, descansa mais um pouquinho" , dá-lhe um beijo na testa e se afasta para cuidar da filharada em algazarra constante. Sebastião começa a balançar devagarinho, como cão que balança o rabo em contentamento. A filha o arrancara de alguma recordação terrível,que ele tinha dificuldades - e pouca vontade - em reconstituir agora.

Lembranças doloridas da esposa falecida?...ai, aquela insinuação de dor no peito, melhor abandonar a trilha dessa lembrança... talvez algo mais distante, impreciso. como chances perdidas, irrecuperáveis, seu peso acumulado na nossa consciência. Mudanças de carreira, sonhos ambiciosos abandonados em sabe-se lá que circunstâncias.
...é. alguns pedaços da vida apenas somem. sorte nossa se sobra algum rastro, algum farelo que seja.

...um artigo revolucionário que ele quis escrever um dia, antes , na ocasião?de seu primeiro infarto. Qual era mesmo o título, porcaria!...

(e o eco persiste, nas bordas da consciência : o coro leve de risadas zombeteiras, infantis)

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