quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

[instantâneo] Nonando

Acho que essa foi a primeira vez em que aprendi uma palavra nova num sonho. Acabo de dar uma olhada no Aurélio, “nonar” não consta da edição que eu tenho (mas há um “nonada” que pode muito bem ser um parente distante).

Digo que aprendi palavra nova porque o tal “nonando” não só apareceu no meu sonho, mas, como não sabia o que era, pedi explicação. Não me lembro quem era meu interlocutor onírico, mas ele/ela?me disse ( e me lembro com um cado mais de certeza do tom um tanto alegre da criatura, não sei se jocoso ou amistoso), “nonar” é mania de dizer “não”, ficar dizendo “não” pras coisas. Algo assim.

Não sei, mas suponho que quem estava “nonando” sonho afora devia ser eu mesmo.

...e se me lembro do “nonando” e não dos outros detalhes do sonho é porque acordei logo depois , lembrei daquilo, gostei ; achei que daria uma crônica gozada, mesmo que rasteira. E voltei a dormir imediatamente. Não supunha que a palavra fosse tão fácil de guardar e o resto,não. De qualquer forma, imaginei uma etimologia barata pra coisa (que, como o próprio tom de momo sugere, não deve ser mais do que uma neologice infantil): a não-raiz “no-” diz muito, é o “No” gringuês, o meio-irmão mais rude,brusco do nosso um cado mais manhoso “Não”.    

...acho até que há um eco aí da insistente repetição da música Rehab, que virou hino fúnebre pouco apropriado mas oficial da Amy Winehouse, falecida há poucos meses. “No,no,no.”. Essa, mesma, uma forma de negação um tanto preguiçosa, não? Não é um repúdio desesperado – não havia nada opressivo ou urgente na minha rememoração do sonho – mas um “quero não” baiano-clichê, macunaímico.

Ainda que  o “não” enquadrado que mais prontamente me ocorre – isso, depois da lembrança fácil de Amy Winehouse – é o de uma leseira existencial, uma depressão engajada, sem fim: é o “I'd rather not” do Bartleby, de Herman Melville. “Prefiro não fazer isso.”. Não porque tenha algo melhor para fazer. Mas porque não há nada para fazer. Nenhuma opção. Não adianta nada.

Uma anedota:

Sou formado em Filosofia e não gosto de falar a respeito por pura vergonha. Não tenho vergonha da escolha do curso, mas de meu desempenho acadêmico, que dá toda um nova dimensão à palavra “medíocre”.

Mas o auge da minha carreira acadêmica ocorreu durante um curso ministrado por um professor americano visitante. Ele tinha um método interpelativo de dar aulas que era o completo oposto dos professores do departamento; esse senhor ficava a todo momento lançando questões à turma... e a gente era sempre lerdo no responder, hesitando, nem sempre alguém se arriscava.

Certo dia, ele perguntou à classe algo do tipo : Qual é a afirmação/conclusão/verdade mais perene/recorrente/fundamental da história da Filosofia?

, e ficou aquele silêncio embaraçado da turma; que eu mesmo rompi, pra minha própria surpresa, e meio-brincalhão...meio-sério: “Eu não sei.”

E todos riram, mas quando a professora brasileira traduziu a resposta para o inglês, o americano abriu os braços e fez uma cara de "finalmente!", confirmando , reforçando : “I don't know!”

O que é gozado, porque isso é paradigmático de um discurso de papagaio que eu tenho exercitado em minhas sessões de terapia nos últimos meses (oh, essa atitude minha é velha, mas tem se intensificado recentemente): “eu não posso”;”eu não consigo”; “eu não quero”...? - “eu não entendo”: eu-não-sei .

E me ocorreu há pouco: se era eu mesmo quem estava “nonando” durante aquele sonho, talvez eu estivesse dizendo “não”a apenas uma coisa. Como uma criança que não quer levantar cedo, reclama quando a mãe ou pai vem tirá-la da cama de manhã pra ir pra escola. Eu era assim mesmo.

Talvez eu apenas não queira mais acordar de jeito nenhum.

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