domingo, 29 de agosto de 2010

[mini-conto] beibibum

BEIBIBUM

Rosie adorava crianças (e isso desde que era criança, ora essa) e o trabalho era mais do que bem remunerado... mas talvez por isso mesmo a tensão sutil mas inegável, e constante, em seu trabalho na creche fosse justificado.

sábado, 28 de agosto de 2010

[miniconto] o monstro da semana: um tarado

O MONSTRO DA SEMANA : UM TARADO
O pervertido se esgueira pelas sombras em plena luz do dia, assombrando ruas, praças, terrenos baldios. Rosto abaixado, evitando o olhar de qualquer um, como que fingindo que não está lá; como se seu casaco imenso e imundo , seu fedor de bicho molhado não o denunciasse por todo lado.

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

[conto] bom, mau, indiferente

BOM, MAU, INDIFERENTE

Apolo e Dionísio.
"Xii, lá vamos nós outra vez."
"Calado que eu quero ouvir."
"Calaboca você."

sábado, 21 de agosto de 2010

[conto] lugares comuns: o melhor dos dois mundos

LUGARES COMUNS: O MELHOR DOS DOIS MUNDOS

[escrito para o para concurso da comunidade orkut Contos Fantásticos]

Eustáquio não esperava uma recepção tão boa quanto aquela quando chegou ao Inferno. Uma recepção tão, bem... Calorosa.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

[mini-troço]o monstro da semana:cuca[edit. 26/08]

O MONSTRO DA SEMANA : CUCA

Nem parteira, nem carpideira:
Lilith, papa-anjo, come bebês no café da manhã (pescados de seus berços ou colhidos dos braços maternos,na madrugadinha). Engolindo-os de uma vez só, Tiamat lambe os beiços satisfeita e passa a manhã  digerindo a refeição única em preguiça reptiliana.
À tardinha, a Bruxa Velha arrasta-se encurvada e resmungona pela casa, limpando,limpando,limpando com sua vassoura de piaçava - arrotando, e vendo inchar, estufar o barrigão. Entediada, Kali gasta uma hora ou duas fazendo malabarismos com crânios que sobraram do último kali-yuga.
Finalmente, noite alta, a Esfinge abre o próprio ventre com suas garras, deixa rolar para o frio escuro velhinhos nús e perdidos, e só então descansa.

domingo, 15 de agosto de 2010

[microconto] trepanação

TREPANAÇÃO

"Está tudo em sua cabeça", disse-lhe seu doutor.
Aliviado, o louco voltou pra casa, trancou-se em seu quarto, tirou a arma da gaveta, colocou o cano contra  uma têmpora, puxou o gatilho.
Para ventilar as idéias, sabe.

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

[mini-conto]eterno crepúsculo

ETERNO CREPÚSCULO

Tanto Johnny quanto Jane não punham os pés numa praia há décadas, desde os tempos do rockabilly ; desde a época em que foram batizados por vampiros beatniks que importaram a “moda” do Marrocos(trazida, por sua vez, por imigrante famintos de seu isolamento ecológico de séculos nas montanhas etíopes).
Ambos amavam luais sob as estrelas, mas a idéia sumira de suas mentes com a transformação; como se as praias fossem território sagrado, dedicado ao deus sol, vedados à tribo Cool, Os-de-Sangue-Frio.

[mini-troço] madona de ferro

MADONA DE FERRO
a placidez benevolente da imagem sacra, quase-sorriso estóico, autista...
, falsa sonolência, falsa-sonsa-santa, desperta, planta carnívora, à aproximação da presa:
arreganhada da cabeça aos pés, sorriso longitudinal que se torna esgar de mil dentes finos e pontudos antes de engolí-lo por inteiro,depois cuspir uma pérola indigesta, pequeno ovo mal incubado ("a cada hora nasce um novo otário").
santa oca (corpos cavernosos preenchidos num átimo: santos do pau duro):voraz porque vazia
:aberta-escancarada a nossa escalada para baixo, de volta ao vazio, excursão de ginecologia órfica, salto suicida no abismo-rasgo do ser... que se revela bungie-jumping covarde - inversão do iô-iô de feto atado ao útero pelo cordão umbilical, vai-e-vém, decida-se logo porra!("nem goza nem sai de cima")
...: brochada existencial.
(sua inveja do pênis, meu medo da castração: conciliados no beijo de boa-noite de casal de louva-a-deus na noite de núpcias)
tudo bem, amor: a gente tenta de novo amanhã.

[mini-troço] monstro da semana: múmias

MÚMIAS
largado ao léu: deixado para amadurecer no fundo de um beco.o cadáver do moleque, anônimo (não se sabe quem o matou) & seu funeral de moscas.
o vento soprando entre os prédios, cobrindo o corpo de poeira: à milanesa - mas antes:
o sangue ainda fresco, esfriando (as feridas abertas à visitação das moscas); o refluxo da maré de pó, as folhas de jornal como águas-vivas suicidas, lemingues na contramão, naufragadas.
o corpo embrulhado por inteiro em páginas descartadas de velhas histórias - o açougueiro agita a mão irritado para afugentar as moscas - a encomenda pronta:
o homúnculo de papier machê, papel dissolvido pelo sangue e fundido à carne. o rosto oculto, a morte esquecida, a vida entumbada.
até mesmo as moscas o abandonam, afinal. sequer pode apodrecer em paz.

[mini-troço] frutos secos

FRUTOS SECOS
um alerta mudo a todos os criminosos: no topo de uma colina pedregosa, no fundo de um deserto habitado apenas por cabras e animais peçonhentos.
a árvore dos enforcados dormita, acordada rudemente a cada mês: como um centro de peregrinação, recebendo os cortejos irregulares de executores e executandos , mais oferendas a serem dependuradas em seus galhos secos.
seus muitos frutos, duros, mesmo que vazios - ocos por fora. a música breve do vento raro, o tilintar dos ossos dependurados.
a outra comitiva de fiéis, alternando-se à primeira; a árvore seca e seus fruntos, convergência de dois credos: os abutres e os chacais que passam e vão embora,levam pedaços maduros, caídos dos galhos retorcidos, plantam essas sementes em outras colinas, outros desertos, onde nascerão mais árvores mortas.