terça-feira, 25 de setembro de 2012

[miniconto] No amanhecer do terceiro dia


[escrito para a Semana da Decomposição , na comunorkútica CONTOS FANTÁSTICOS; postado sob o pseudônimo "Felício Finório"]

Os discípulos do Mestre reúnem-se em silêncio e em segredo, encontram-se nas madrugadas gélidas da Galiléia, longe do olhar de ferro dos odiados romanos.
Agrupam-se nas cercanias da cidade acalentando o sonho comum da libertaçao do jugo estrangeiro, da fuga dessa vida de exilados na própria terra. O Mestre encontrou o caminho para fora da prisão; o Mestre irá levá-los além daquele mundo ignóbil.
A pequena multidão caminha de pés descalços até o túmulo esquecido, anônimo – junta-se para afastar a pedra que impede a passagem; são recebidos à entrada do esconderijo do Mestre por um vento pútrido, pelos ecos da Palavra Santa: esses são de fato os últimos dias, mas quem receber a graça do Mestre em seu ceio será poupado dos horrores que virão, que são os horrores de hoje, multiplicados até a insanidade.
Apenas no interior sufocante da cova os díscipulos ousam acender seus archotes. Vasculham ansiosos as paredes de rocha sob a luz trêmula – ali : ali, no pó, no lodo, uma trouxa de roupas imundas parece se desenrolar por conta própria, e então se ergue, emoldurando o perfil esquelético de um homem .
O Mestre apenas acena aos recém-chegados para que se aproximem. Não há mais necessidade de palavras, tudo já fora dito antes: que Ele fora ao outro mundo e voltara com a Boa Nova. Que não há nada além do Véu, nada além dessa escuridao e desse frio. Que a Terra Prometida além da morte não existe.
Que há apenas o que há aqui; que essa vida desgrada de todos é só o que há, e que  ela deve ser agarrada com força, e mordida, e devorada. Que não há mais nada além dessa fome sem fim que incendeia os mortos.
O Mestre toca com delicadeza a face manchada de lágrimas do novo discípulo, que treme à espera de receber sua Graça ; a Graça que o Mestre recebera anos antes do rabi proscrito, a Graça que acreditava ser sua missão distribuir entre todo os seus desgraçados irmãos, os vivos.
Segurando agora com firmeza a face do discípulo, Lázaro inclina-se para o beijo salvador.
Tomai e comei, irmãos. Tomai e comei.

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